quinta-feira, 1 de julho de 2021

BOAS VINDAS AO NOSSO BLOG JDE BRASIL


TEXTO DE BOAS VINDAS, 
COMPLEMENTANDO A UMA EDIÇÃO DATADA 24 DE JUNHO DE 2020


Ontem em conversa ao telefone com Davy Levy pensamos em abrir mais uma frente para o site judeusdoegito.org onde o visitante possa ler mais e mais de outros assuntos sobre o tema "judaísmo e judiaria" oriundos do Oriente Médio. Muitos escreveram sobre o assunto e que esperamos que com a contribuição de todos possamos abrir novas frentes além da comunidade originária do Egito. Afinal somos ou não somo nômades?
Se diz (não sei de quando e nem de onde veio a citação) que uma família judaica não passa mais de duas gerações no mesmo país. è verdade? O que você, querido(a) amigo(a) leitor(a) acham desta citação?

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Sami Douek em primeiro de julho de 2021

Saiba como acessar este Blog à partir de qualquer aparelho.
Basta digitar ou copiar e colar: https://judeusdoegito.blogspot.com


Bom dia,


Devo aos meus amigos e meus parentes do grupo JUIFS D´ÉGYPTE à quem faço esta apresentação preliminar após um momento de satisfação vivido ontem ao "postar" a minha experiência dos eventos dos ataques à cidade do Cairo onde muitos judeus viviam amedrontados com o incerto desta crise, mesmo que previsível, ela anunciava a mudança dos rumos para os próximos anos para vir o que culminou num exido maciço desde o começo dos anos 1960.

Na minha memória de criança certas marcas, perfumes e sabores permanecem. Sou engenheiro que gosta de escrever de ouvir boa música e apreciador de vinhos franceses e queijos cremosos com baguettes ou até com um correto pão italiano. O dito pão francês fica para acompanhar a manteiga e o café coado à moda brasileira.

São 22:30 e percebo que meus dedos teclam ideias que não tinha em mete ao abrir a tela do meu computador. E como sempre me vem a ideia das palavras e advertências citadas pelos meus pais David e Rosa (Z"L) cada qual com uma citação que guardo para a eternidade ou para meus parentes amigos, companheiros e companheiras sem evidentemente deixar de mencionar a minha (sempre) filha Layla que me significa a permissão de ver nela um brilho intenso sempre presente mesmo nem sempre visível pois depende das estações do ano. Assim são os sentimentos e assim são as mulheres. O brilho do rosto feminino amado é o brilho da luz suave e cândida e como dizíamos nossos pais "zai el ámar" (juste comme la lune/just like the moon); E foi assim que se expressava minha mãe Rosa sempre que qualquer ocasião permitisse.

Voltando ao pão, dito francês, com manteiga e café coado (nada de café de cánaca), minha mãe, ainda no Cairo, citava que o café adequado eras chamado "café tipo santos, número 10". será que estou certo? Anos depois, ela comentou comigo sobre o café comprado na torrefação perto da nossa casa no Cairo e me soltou essa (em francês ou árabe, pois não me lembro mais).

- Eu era uma menina quando me mandavam buscar café torrado tipo santos, foi o que fazia mas jamais na minha naqueles dias poderia eu sequer imaginar que a expressão "santos" fosse significar mais do que um tipo ou marca de café.

Ambos soltamos um meio sorriso 
um olhar de agradecimento aos céus e ao Brasil que nos acolhe!

faço meus agradecimentos ao país, à nossa saúde e à memória dos que nos observam e nos protegem, onde quer que estejam em paz e felicidade com "meios sorrisos" que sinto neste comento como se fosso uma mão doce invisível sobre meus ombros. Os pequenos ombros que tão afetivamente foram abraçados.

Um cordial Shalom.

Sami Douek em santos, dia 24 de junho de 2020

Dica do café turco:




sábado, 24 de outubro de 2020

A VIAGEM SEM VOLTA

Segue o capítulo quatro das entrevistas do projeto "A TRAVESSIA" que conta a historia da nossa emigração. Assista e se emocione conosco.


A VIAGEM SEM VOLTA

Um vídeo de uma série de muitos - Quarta parte de 20 partes.


Em agosto de 2020 iniciamos um projeto que esperamos que seja contínuo. Com mais de uma dezena, hoje todos amigos, de judeus imigrantes do Egito entre 1956 e 1962 que são entrevistas via ZOOM. Nestes momentos difíceis que se iniciaram desde março deste ano, estamos vivenciando, medo, cautela e aproximação. Esta série de entrevistas está suficientemente documentada. O objetivo deste espaço é hospedar os vídeos para acesso imediato apenas os que recebem o link de acesso. Em outros termos, a imagem dos editores e dos entrevistados serão preservados.
Neste vídeo está a sequência do mesmo tema.

Sami Douek. em 20 de Outubro de 2020






segunda-feira, 7 de setembro de 2020

DORMINDO COM O INIMIGO



Entre minhas lembranças de infância e compreensões mais afetivas do que racionais, estou sempre pronto, e desde cedo, em relatar cenas da guerra no silêncio e no medo interior do escuro de casa e no escuro da minha alma infantil ainda dos meus sete anos de idade.

Lembro da compra num armazém perto de casa, de papel pardo, azul escuro e suficientemente grosso para não parecer translúcido.
Também lembro da compra de caixas de percevejos de cabeça dourada e de um pequeno martelo.
Ao chegar em casa, minha mãe Rosa (ZL””) sobre a mesa da sala de jantar, manejava o papel pardo com se fosse traçar formas em desenhos cheios de curvas, para algum modelo de costura; mas não!
O papel originalmente vendido para encadernar livros escolares, foi comprado para cobrir janelas com frestas venezianas nos poupando do risco de vazar qualquer raio de luz, muito pouco provável, mas em especial para evitar o vazamento da luz da lamparina do Shabat, invariavelmente acesa nas sextas feiras e na hora certa.
A lamparina significava a nossa proteção e agradecimento pelo dia do repouso santificado e também pela paz dos que estão se arriscando no front, sejam os atacantes ou atacados.
O medo de perda ou do sofrimento de qualquer um era sentido, provavelmente mencionado em preces silenciosas que minha mãe balbuciava em árabe e que eu não entendia mas que sentia e sinto intensamente até hoje.
As preces eram complementadas pela expressão em tom de súplica “Yarâb”.
Era comum que nos juntássemos os quatro irmãos em um canto da sala, fisicamente ao redor da nossa mãe e emocionalmente nos braços dela.
Este momento de encolhimento estava entre intervalo de uma sirenes que anunciava a obrigatoriedade do Black Out e de uma segunda sirene, anunciando o relaxamento dos ataques.
Durante este intervalo em silêncio e concentrações, em contraponto com este silêncio em obediência, estava o som dos aviões israelenses sobrevoando a cidade do Cairo e o lançamento de bombas em alvos que desconhecidos.
Assim mesmo mantenho em mente imagens da família reunida e amedrontada, com o luar da luz da lamparina brilhando suavemente nas paredes de casa e também iluminando o papel pardo, do lado de dentro sobre a janela, como se esta luz fosse um escudo protetor dos céus, perante nosso sofrimento e perante da nossa fé sempre radiante em tempos de guerra, doença ou paz.

E somos hoje e sempre todos abençoados desde então e continuamente nômades. Cito este texto do interior do meu ser que me acompanha e que me faz o que sou.

Sami Douek em 24 de Junho de 2020

Assistam o vídeo da série A PASSAGEM em um pequeno trailer, 
comigo e com Alberto Souss

 



sexta-feira, 24 de julho de 2020

SER JUDEU



Para Davy Levy e Edu Cohen.

Em sequência às nossas conversas, conhecimentos e experiências expostas em áudios e vídeos; certamente me enriquece a percepção de ser judeu e do ser judeu. E certamente temos o que o destino e a história nos reservou e tal como vocês Davy e Edu citaram, temos, no conhecer das línguas, a possibilidade de transpor obstáculos e abrir horizontes. Uma complexa análise entre o judeu errante e o judeu nômade na sua essência mais nobre. Temos línguas e linguagens e temos um caráter bem definido e cultuado em várias questões que nos faz o que somos. Judeus em relação à crenças, lealdade, território, assimilação, integração, movimentação, resiliência, indignação, defesa e proteção. A lista é longa, boa e abençoada!

Penso em escrever, filmar, contar histórias e compartilhar o ser judeu e suas fronteiras Fronteiras que ora são nulas, e que ora são ocultadas por precaução e para sobrevivência.

No silêncio da noite o ser judeu sabe das fronteiras que ele terá que construir para se fortalecer ou derrubar para se fortalecer mais ainda; dependendo da sua união com os seus e da sua perseverança em cada contexto quando bem analisado, seja em tristezas ou alegrias.

Shabat Shalom

Sami Douek
24 de julho de 2020

sexta-feira, 3 de julho de 2020

GRITOS E SUSSURROS



Era madrugada de um dia de inverno, quando de surpresa dois táxis, pretos estavam estacionados na entrada do prédio onde residiam eu e minha família na rua Chawarbi na cidade do Cairo de 1962. Esta madrugada continua e continuará para sempre uma madrugada sem luz, de noite e de trevas do Egito para mim, passado e presente. Este é o legado das minhas lembranças; a saída desta dita experiência vivida me significa o resgate à honradez longe da loucura e da insanidade dos obedientes perseguidores. Alguns amigos, judeus do Egito ainda se sentem com tal, “Judeus do Egito”, tal como citam insistentemente; pois eu me sinto judeu e culturalmente, árabe, francês, italiano e porque não sueco? Não tenho forças ou energia ou vontade de expor e fotografar feridas; por favor não. Que os que viveram Groppi, Kasr El Nil e as bailarinas desnudas rebolando nos cafés e nas telas de cinema em preto e branco, estes não deveriam me interpretar hoje. Dispenso comentários arrivistas ou reacionários. Esta retomada do passado de forma leve e alegre não me pertence e não me pertencerá na terra natal mas talvez terá espaço na minha imaginação e em outro contexto; o contexto dos que fazem cinema, vida inventada por curtos períodos de entretenimento e cultura, point barre!

Aprecio verdades e cada verdade de cada um da mesma forma e da mesma intensidade manifesta. Cada qual se precisa reconhecer para a ter vida própria e autêntica mas jamais em unanimidade, pois aqui no Brasil e na figura de Suzana Flag (gosto dos pseudônimos e de ghost writers), a unanimidade do pensar e expressar não é algo digno de louvores.

Os que estão, e os que não estão mais, os que viveram e os que sobreviveram, muito estão no silêncio da noite do exílio, da minha noite sendo a noite despedida, tal como foi a despedida dos meus semelhantes, ditos vizinho de coração e vizinhos de expressões e sentimentos que hoje se fazem viajantes noturnos nos meus momentos de repouso.

"Cris et chuchotements" são expressões intensas e significativas na arte de citar, escrever e registrar através da capacidade de cada qual, sobre o quanto pode ser difícil viver, com ou sem Bergman. Sobreviver é uma obrigação moral e religiosa. Contar histórias vividas com a delicadeza de curar uma ferida, não pode significar uma aversão ou transgressão. Os que se foram e os que me educaram permanecem na eternidade de um pensar que se perpetua como se perpetuarão as verdades. Verdades difíceis mas que significam. Os mentirosos, os perseguidores e os transgressores não tem espaço digno de citações ou lembranças. Estes são afastados em respeito aos que me que me fizeram o que sou, humano e muito sensível. Verdade seja dita.


Sami Douek, 3 de Julho de 2020


quinta-feira, 2 de julho de 2020

SAUDAÇÕES AOS AMIGOS




Um projeto em curso está em andamento na busca de parceiros, colaboradores e patrocinadores. Se trata de uma proposta social e cultural no resgate da memória de imigrantes, hoje brasileiros, oriundos do Egito por perseguição ou até expulsão.

Sami Douek em 2 de Julho de 2020



sexta-feira, 26 de junho de 2020

CENAS DE UM HUMOR EGÍPCIO
























Ettáfa l´nour!

Um colega nosso do grupo me surpreendeu com o inequívoco humor tipicamente egípcio pois conheço pouco senão o humor oriental de alguns amigos libaneses pois sírios (que me perdoem os sírios) são totalmente desprovidos de humor. Eu creio que a bobagem da República Árabe Unida (RAU) não deu certo pois a linguagem entre os povos não se assemelha. Dizer que o Nasser não tivesse tido senso de humor, também é outra bobagem, pois me basta a crítica feroz que ele fazia aos “frères musulmans”. Os tais irmãos barbudos não eram culturalmente bem recebidos entre os revolucionários de 1951 que derrubaram a monarquia junto com os bigodes do Farouk e do Fouad que se diziam egípcios. Este primeiro se mandou à beira do seu iate batizado em árabe para seu (pobre) exílio certamente fumando charutos cubanos e sendo rodeados por mulheres europeias, ou não, ostentando traseiros bem roliços do jeito que o oriente todo gosta este foi o legado da família real de origem albanesa trazida pelos simpáticos dominadores otomanos.


Mas voltando ao humor, o já marcante Ettáfa l´nour descreve a capacidade de sobrevivência ao perigo mesmo que este já tenha passado. Nosso querido e inteligente amigo resumiu que o Black Out podia ter sido leve como uma ruptura de energia e o nosso êxodo ter sido um êxito (do exit, grego que significa saída). Pois a saída foi para a sobrevivência e para o êxito que tem conotações positivas. Então todos que saíram do Egito fizeram deste fato um êxito? Eu acho que sim. Um êxito sofrido mas um êxito de fato pois no mínimo, é é muito, estamos aqui escrevendo e relembrando, ou seja trazendo um presente e uma presença “hoje e agora” para os nossos filhos e netos. Trazemos cenas de vida, de bem dizer e de humor tipicamente egípcios. That's all about. O resto é cinema. O resto é Hollywood. Quem gosta de cinema que pague o bilhete e que volte para a vida real duas horas depois.

Sabah El Kheir We Sabah el Nour!

Shabat Shalom

Sami Douek em 26 de junho de 2020