Era madrugada de um dia de inverno, quando de surpresa dois táxis, pretos estavam estacionados na entrada do prédio onde residiam eu e minha família na rua Chawarbi na cidade do Cairo de 1962. Esta madrugada continua e continuará para sempre uma madrugada sem luz, de noite e de trevas do Egito para mim, passado e presente. Este é o legado das minhas lembranças; a saída desta dita experiência vivida me significa o resgate à honradez longe da loucura e da insanidade dos obedientes perseguidores. Alguns amigos, judeus do Egito ainda se sentem com tal, “Judeus do Egito”, tal como citam insistentemente; pois eu me sinto judeu e culturalmente, árabe, francês, italiano e porque não sueco? Não tenho forças ou energia ou vontade de expor e fotografar feridas; por favor não. Que os que viveram Groppi, Kasr El Nil e as bailarinas desnudas rebolando nos cafés e nas telas de cinema em preto e branco, estes não deveriam me interpretar hoje. Dispenso comentários arrivistas ou reacionários. Esta retomada do passado de forma leve e alegre não me pertence e não me pertencerá na terra natal mas talvez terá espaço na minha imaginação e em outro contexto; o contexto dos que fazem cinema, vida inventada por curtos períodos de entretenimento e cultura, point barre!
Aprecio verdades e cada verdade de cada um da mesma forma e da mesma intensidade manifesta. Cada qual se precisa reconhecer para a ter vida própria e autêntica mas jamais em unanimidade, pois aqui no Brasil e na figura de Suzana Flag (gosto dos pseudônimos e de ghost writers), a unanimidade do pensar e expressar não é algo digno de louvores.
Os que estão, e os que não estão mais, os que viveram e os que sobreviveram, muito estão no silêncio da noite do exílio, da minha noite sendo a noite despedida, tal como foi a despedida dos meus semelhantes, ditos vizinho de coração e vizinhos de expressões e sentimentos que hoje se fazem viajantes noturnos nos meus momentos de repouso.
"Cris et chuchotements" são expressões intensas e significativas na arte de citar, escrever e registrar através da capacidade de cada qual, sobre o quanto pode ser difícil viver, com ou sem Bergman. Sobreviver é uma obrigação moral e religiosa. Contar histórias vividas com a delicadeza de curar uma ferida, não pode significar uma aversão ou transgressão. Os que se foram e os que me educaram permanecem na eternidade de um pensar que se perpetua como se perpetuarão as verdades. Verdades difíceis mas que significam. Os mentirosos, os perseguidores e os transgressores não tem espaço digno de citações ou lembranças. Estes são afastados em respeito aos que me que me fizeram o que sou, humano e muito sensível. Verdade seja dita.
Sami Douek, 3 de Julho de 2020

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